Briga entre turcos e curdos já busca despojos
da invasão dos EUA no Iraque
22/10/2007
Todo mundo que tenha qualquer noção do que está na Bíblia - ou mesmo quem tem pouquíssima idéia - já ouviu falar do lugar no qual tropas turcas (entre as de outros países) combatem guerrilheiros curdos. Fica bem próximo ao Monte Ararat, ali onde a Arca de Noé encalhou. É uma região bastante montanhosa, de uma beleza árida que muda bastante a cada estação do ano. Agora, por exemplo, só quem sabe viver em montanhas agüenta o frio que já faz de noite, em contraste com o forte calor que ainda reina de dia.
Ninguém consegue sobreviver ali melhor do que os curdos. É talvez o maior povo do mundo sem Estado próprio: umas 30 milhões de pessoas, nas estimativas mais conservadoras, ou pelo menos umas 60 milhões, segundo os curdos. Espalham-se pela Turquia, Irã, Iraque, Azerbaijão e Síria, e jamais puderam ser totalmente controlados pelos governos de qualquer um desses países, com os quais regularmente entraram em confronto.
Os curdos têm idioma próprio e em sua grande maioria são muçulmanos sunitas, mas nas últimas décadas não é religião o fator que os levou a lutar ainda mais entre si do que contra os regimes dos diversos países nos quais vivem. Os curdos jamais conseguiram se colocar de acordo sobre quem seria o líder de todos eles, nem como estabelecer o próprio país. Nesse sentido, a situação deles lembra muito o que acontece em outras regiões montanhosas, como no Afeganistão e no Cáucaso: a feroz tradição de independência e orgulho tornou os curdos excepcionais guerrilheiros, que ninguém até agora dominou. Mas cada um deles obedece sobretudo ao próprio clã.
Tudo mudou bastante com a guerra do Golfo de 1991, que criou para os curdos um santuário no Norte do Iraque e, decisivamente, com a invasão americana de 2003, que parece ter dado aos curdos acesso ao que mais conta na região: petróleo. Pela primeira vez em muitos anos, as duas grandes facções políticas nas quais se dividem os curdos iraquianos se colocaram de acordo. Apóiam até mesmo o governo xiita de Bagdá, se for para manter em cheque os árabes sunitas com os quais Saddam Hussein tentou "recolonizar" as regiões curdas no Iraque e, sobretudo, garantir o tipo de autonomia que, eventualmente (e com petróleo...) tornaria viável um Estado curdo.
Este é o pano de fundo para a perigosíssima situação criada com a autorização do Parlamento turco para invadir o Norte do Iraque - que generais turcos da reserva consideram inevitável depois dos ataques de guerrilheiros curdos a tropas turcas nos últimos dias. É uma das situações mais complicadas que os americanos enfrentam no momento: os curdos são seus aliados, e sem eles o governo xiita não se sustenta em Bagdá. Mas a Turquia também é, nominalmente, aliada americana, e integrante da Otan, mas que hoje se entende muito melhor com a Síria ou o Irã do que com Washington.
O problema principal da Turquia é evitar o surgimento de um Estado curdo (e com petróleo) que funcione como magneto para a importante minoria curda que vive em seu país. É o mesmo problema do Irã que, não importa se governado por uma monarquia (a dos Pahlevi) ou uma teocracia (a fundada por Khomeini), reprimiu e combateu da mesma maneira os curdos iranianos. Também aos americanos não interessa um Estado curdo, que só poderia ser fundado com o desmembramento formal do Iraque, já razoavelmente partido em três entidades.
No momento a situação é indefinida sobretudo pelo fato de que ninguém parece exercer controle sobre os curdos, muito menos o governo de Bagdá, que prometeu aos turcos fazer alguma coisa contra os guerrilheiros que fustigam as tropas de Ancara a partir de bases no Norte do Iraque. Da mesma maneira como ocorre no centro e no Sul do Iraque, o sangrento rearranjo da situação interna parece caminhar sem que os americanos - que destamparam a panela dos conflitos na região mais difícil do complicado Oriente Médio - tenham uma fórmula, as ferramentas ou mesmo uma idéia do que fazer.
Pode ser que as eleições do ano que vem resolvam, para o público americano, o que fazer com as tropas, que um governo democrata provavelmente trará de volta para casa dentro de um cronograma mais ou menos ajustado com os generais e, só em segundo plano, com os governantes em Bagdá. É muito provavelmente nisso que pensam generais e políticos na Turquia, e aiatolás e guardas revolucionários no Irã: a hora de colher os despojos deixados pela confusão criada pelos americanos mal começou.