EUA perdem
credibilidade no combate à proliferação nuclear
Postado por William Waack
em 06 de Dezembro de 2007 às 20:15
Os Estados Unidos têm certa
tradição em perder a credibilidade em disputas nucleares,
e a meia
A insistência do Brasil, por exemplo,
em buscar um método de enriquecimento de urânio ainda na
metade da década dos 70 ocorreu, em primeiro lugar,
pelo medo de não poder abastecer
reatores, e não tanto por intenções
de obter material físsil para bombas. Naquela
época, os dispositivos que privatizavam a produção de combustível nuclear nos Estados Unidos e permitiam a empresas
fechar negócios com o Brasil foram assinados
pelo presidente Richard
Nixon no mesmo dia em que ele
renunciou – não é de se estranhar que o regime militar brasileiro desconfiasse bastante dos americanos, e tentasse um caminho próprio junto a então Alemanha
Ocidental.
Outro excelente
exemplo de insegurança
nuclear regional criada em
boa parte pela Casa Branca foi o longo
processo que levou à assinatura
de um acordo nuclear entre a Índia e os
Estados Unidos, no ano passado. A
Índia tem a bomba, nunca respeitou os dispositivos de não proliferação estipulados pela
O próprio Irã é bastante ilustrativo de uma política nuclear que premia os amigos e, aos adversários, recomenda justiça. Nos idos dos anos
70, quando o governante em Teerã era o Xá Rehza Pahlevi
– então um dos principais aliados americanos no Oriente Médio – a Casa Branca nada viu de problemático nos planos do monarca iraniano para construir
reatores nucleares (a não ser o fato de que os concorrentes
alemães estavam levando o negócio).
Esse é um ponto que os iranianos, hábeis
negociadores que são, repetem desde
que surgiram as primeiras denúncias indicando que o regime dos aiatolás tentava construir uma bomba. A partir do material publicado na imprensa
internacional nos últimos quatro anos é possível afirmar com razoável certeza de que o Irã queria (e provavelmente
ainda quer), sim, chegar a artefatos
nucleares.
Na raiz dos esforços iranianos está provavelmente a guerra Irã-Iraque (uma das que
mais mortos causaram no século XX). O então recém-instalado regime dos aiatolás (a guerra começou em outubro
de 1980 e durou até meados de 1988) foi atacado por um ditador, Saddam Hussein, que tentou chegar à
produção de todos os tipos de armas
de destruição em
Tirando da conta, ainda
na década dos 40, os casos clássicos
de Estados Unidos e da então União
Soviética, os demais países que
chegaram à bomba tinham como
foco central preocupações defensivas. O argumento é especialmente verdadeiro no caso de
O recente relatório da comunidade
de informações americana –
“rebaixando” o percebido perigo nuclear representado pelo Irã – evidentemente
constrange a Casa Branca, torna difícil impor
sanções mais rígidas ao Irã
no Conselho de Segurança da ONU e deu aos
aiatolás um excepcional golpe de propaganda. Mas
há ainda outra lição, mais
abrangente, a ser retirada
do episódio.
É a falta de credibilidade das principais potências nucleares – os EUA à frente de todas
– que torna tão difícil imaginar
que o regime de não proliferação continue funcionando
por muito mais tempo. Ele se baseia numa
proibição (a da disseminação de tecnologias nucleares) em troca
de uma promessa – a do desarmamento nuclear.
Que jamais foi cumprida.